CEGARAM-SE OS OLHOS
Sobre as ruas e as calçadas,
Sobrecarga. A sociedade?
Que loucura é essa?
Que estranhamento!
Cegaram-se os olhos?
Esses olhos que as informações devoram
como ondas que encharcam a praia,
aquelas torrenciais que nos fazem perder o fôlego
e não sentimos.
Como o ar que nos aspira à vida
e agora já não mais como antes
nos polui a via. Estou se fôlego.
A rede mãe, sociedade alucinada,
vibra com impulsos frenéticos.
100000 watts.
A consciência pára. Os sentidos também.
Presos a ela desde os primeiros,
nos transformamos em terceiros.
Não importa mais o outro.
Quartos, quintas; e a vida se resume a um bit.
Sobre a tela cartesiana
organizam-se os dados,
e nos transformamos informações:
Números, signos de alguém.
E qual é o seu significante?
A modernidade possibilitou a criação de muitos eus.
Eus qye precisam de ordem
para se reconhecerem como uno.
Uno o duplo a mim mesmo
e crio minha imagem.
Mas no armário do imaginário cada dia somos um...
e por isso, a sensação de não sermos ninguém.
Perverteram-se os sentidos.
O homem não mais consegue dicernir.
A tecnologia desenfreada
passa como um rolo compressor
sobre a individualidade humana.
Somos uma massa pasteurizada,
ligados pela luz.
E o que seria de nós sem a luz?
Brancura que devora não só as coisas
mas também as próprias coisas e seres,
tornando-os duplamente invisíveis.
Não podemos negar:
Nossa sociedade se super expôs;
e a cada instante cega mais um.
O diafragma da Terra está usurpado
e o único que o homem faz é negar.
E assim nada mais para o fundo,
na tentativa de fugir e recuperar o fôlego.
Sim. Cegaram-se os olhos.
O homem nada contra a maré
e se distancia da superfície.
Não percebe que nesta direção,
o mar se abre para um abismo infinito.
Mergulha. Os olhos ardem.
Ah os olhos. Olhos que querem cerrar.
Virados para dentro mais e mais e mais,
até poderem alcançar e observar
o interior do cérebro,
onde a diferença entre ver e não ver,
é invisível a simples vista.
Waira Alberich
São Paulo - Dezembro de 2002